alegoria

terça-feira, 29 de dezembro de 2009 às 17:46
hoje acordei lembrando que o ano está acabando. e me dei conta que assim que um ano acaba, outro começa. de súbito, veio-me à mente a lembrança do começo desse ano. da areia entrando nos pés, das tuas mãos na minha cintura e... principalmente... da primeira coisa que fizemos quando o novo ano chegou: beijamo-nos. e foi um beijo igual a todos os outros nossos beijos. não foi um beijo mais acalorado, não tinha sequer um sabor diferente. era só um beijo. mas era teu e isso bastava para que fosse o melhor ritual de ano novo. nos abraçamos. nos olhamos. não lembro o que dissemos, mas o beijo ficou. o primeiro beijo do ano. como uma promessa que não se cumpriu foi o primeiro dos poucos que vieram. e eu queria mais. sempre quis mais e tu, de certo, nunca me negaste, mas era raro quando me oferecias. e quando vinhas, vinhas rápido, coelho de Alice correndo. chorei um pouco porque saudade é coisa doída, e dói um tantinho mais lembrar de ti com carinho. não que tu não mereças carinho. mereces todo. mas não o meu. foi o meu carinho que te sufocaste. foi o meu carinho que te afastaste mais e mais pra que depois tu voltaste pedindo abrigo. mas a fonte cessou, e eu te pedi tempo, espaço, calma. tu não tinhas, embora prometeste. então te neguei com uma dor imensa de quem nega um filho que não reconhece. não te reconhecias mais. mas te querias com ardor incomensurável. tu foste. fiquei. e um outro ano está vindo. e passarei só, prelúdio dos beijos que não virão. e tu, não tenho dúvidas, passarás alegremente com amigos e bebidas. e quem sabe, quando der meia-noite, lembrarás de mim por um instante, meu beijo simplório da última virada. ou não. ou evitarás lembrar de quem manchou tua honra. ou, ainda, não lembrarás por ter escolhido caminhos mais floridos. tu, que anuncias ao vento novas flores, estará cativando novos cheiros? cultivando novos sabores? mas por estares longe, dedico aqui, ao vento das teclas, meu carinho escondido. é provável que tu não leias, mas se por ventura ainda sou letras lidas, que seja tua mensagem.

um ano lindo, pulcro poeta. que te lances ao mar da ventura e que eternos amores sejam barcos ancorados. e que nada mais, nada, seja partida.

beijos de quem não é mais flor. mas que ainda é vida.



"E de amar assim, muito amiúde, é que um dia, em teu corpo de repente, hei de morrer de amar mais do que pude." [ Vinicius de Moraes ]

brilho fosco

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009 às 20:15
sabe o que me encanta? cor forte! um azul brilhante, um vermelho escarlate, um roxo escuro. me encanta essa invenção arcaica chamada livros. esse um monte de folhas sobrepostas, com letras que me desperta alguma coisa que sei-lá-o-quê. me encanta a risada do meu pai, sempre longa e sonora, grave demais certas vezes, sempre depois daquele gole de cerveja na varanda fresca. me encanta ver pela janela da sala os pés pro alto da minha mãe que se balança na rede, não por muito tempo, já que há sempre alguma coisa por fazer, e ela sempre faz. me encanta as paredes do meu quarto cheias de desenhos infantis, feitos em tempos recentes, por gente madura demais pra desenhar traços firmes. me encanta o cheiro de tempero que sobe as escadas e me acorda de um sono conturbado, como é o sonho de quem sonha a realidade. me encanta aconchego de cachorro manhoso, no calcanhar de quem descansa, carinho gratuito de quem não entende a lógica da reciprocidade. me encanta ouvir música sem pretensão e me lembrar sempre da mesma pessoa. me encanta celular desligado e a incerteza se alguém do outro lado se lembrou de mim refugiada.

são tempos bons. mas ainda falta alguma coisa. ainda falta...



"sempre há alguma coisa que falta. guarde isso sem dor, embora, em segredo, doa." [ c. f. abreu ]

o preto dos olhos

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009 às 10:23
ele disse que queria paz. no momento em que eu queria só ele. no momento em que queria ele com todos os seus palavrões, suas frustrações com o mundo, sua austeridade paternal, seus esquecimentos temporais, sua falta de mobilidade... e eu o queria mesmo assim. ele queria paz. e eu queria o seu tormento.

como uma consequência inevitável, ele disse "...e você não é minha paz!". é, eu não era sua paz. e sabia disso. e esperava pelo momento em que ele diria querer ares mais limpos, vistas mais claras... e esse momento chegou bem no momento que eu o queria como quem quer o inalcançável. esses momentos em que o alpinista resolve subir a mais alta montanha. por teimosia. por visão.

mas meu caminho não chegou no cume. e eu perdi dedos, unhas, sorrisos e medos pelo caminho. foram todos amputados. e, sem querer, fui na sua paz, não tão serena como esperava e disse "a culpa é sua!". como se fosse você o gelo frio que me consumiu. mas pensando bem, você não foi.

e como um defeito inato, me descobri te amando. mesmo depois da guerra que foi te ter. e da guerra que foi te perder. nossas aproximações e afastamentos sempre foram tão conturbadas. e nunca alcei vôos muito altos com você para me livrar dessa tempestade. mas enfim, o amor foi descoberto. redescoberto. reinventado.

e como quem cria um filho pra si, não pro mundo. guardei o amor. primeiro na esperança de talhá-lo ao seu gosto. ao seu belprazer. o amor que eu ia te ofertar. depois, lembrando que você precisa de uma paz ilusória que não tem e nunca terá, resolvi deixá-lo errante e amputado aqui. como quem esconde um tesouro que ninguém sequer almeja possuir.

mas é teu. negado, menosprezado, pisado. mas é teu.

e vai morrer. porque a paz também mata.



"Não tem desespero não... Você me ensinou milhões de coisas..."

"que belo estranho dia pra se ter alegria..."

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009 às 22:01
um dia eu vou te cantar um samba. um desses sambas que aprendi em algum lugar colorido da lapa. e vou também sambar pra você, com um sorriso de menina, e você vai rir. como sempre ri. e vai dizer que sambo toda errada. como sempre diz. e vai estender sua mão, pra me puxar pra perto. como sempre faz. e gosto quando faz. gosto quando você enlaça minhas mãos às suas, assim como quem quer, não pra sempre, não por um instante, mas por aquele momento todo, que eu fique ao seu lado. e fico. e não solto, não. e fico boba como quem tem no toque dos dedos, o porto seguro dos dias que virão. mas é mentira. você sabe que é. embora nunca diga a palavra mentira por não acreditar nela. mas é mentira. amanhã a gente nem vai se ver. e nem depois de amanhã. e quem sabe a gente se esbarre por aí. quem sabe você reconheça meu samba errado e resolva dizer no meu ouvido "...mas é lindo mesmo assim.", como você sempre diz. e quando eu me sentir envergonhada, como sempre fico quando você me elogia, vou te abraçar bem forte e esperar o que você sempre diz "tão bom o seu cheiro..." e vou enterrar o pescoço no seu ombro pra não lembrar que amanhã não vou ter você, só seu cheiro na minha roupa. e seu cheiro é bom. como sempre disse. e você ri, ajeita o óculos e me chama pra dançar. e depois que piso muito no seu pé, você me puxa pro canto. e faz planos. como sempre fez. e me chama pra ir pra lugares que eu adoraria ir, mas que nunca fomos. e nunca iremos. mas na hora eu não sei, finjo não saber e rio alto com o convite. "adoraria!" e falo como seria bom sua companhia naquele lugar. como sempre é bom sua companhia em qualquer lugar. e você pegaria minha mão. de novo. e me olharia fundo. de novo. e me diria aquelas coisas tão bonitas. como sempre diz. e me beijaria com gosto de cerveja. beijo desses que não acabam porque não se quer que acabe. eu não quero. e quando acaba. a gente ri sem graça. querendo mais. como sempre queremos. mas é hora de ir. o samba acabou. você solta minha mão. e amanhã é dia de sentir cheiro. e de desejar mais. mesmo que saibamos, os dois, não ter mais. como nunca tem. mas quem sabe você me encontre... quem sabe...

abre os teus armários

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009 às 22:29
Quando cheguei no metrô São Francisco Xavier ele estava lá. Parado. Quando o metrô chegou, pegamos o mesmo vagão. Não sei porquê, mas fiquei reparando nele. Na barba, na camisa listrada, na mochila marrom, no pé que balançava o ritmo da música. Que música seria? Ele tem cara de quem ouve o que? Será que já leu Baudelaire? Chegou minha estação: Uruguaina. Por coincidência, ele saltou na mesma estação que eu. Subiu a escada rolante do meu lado. E, ora veja!, pegou a mesma saída que eu, das muitas que a estação tem. Para minha surpresa, ele percorreu o mesmo caminho, sem sequer me notar. Entrou na mesma faculdade que eu entrei. E parou na mesma cantina do primeiro andar pra pedir, logo após de mim, a mesma coisa que pedi: café. Como um desencaixe, ele não pôs açúcar. Eu botei 4 colheres cheias. Subi de elevador. Ele subiu de escada. Mas chegamos juntos no mesmo andar: o quarto. O andar de Ciências Sociais. Ele cumprimentou a mesma pessoa que eu acenei no corredor. Não estava acreditando! Aquele desconhecido fazia o mesmo curso que eu! E eu nunca tinha reparado nele, nem naquela estação, nem naquele percurso, nem naquele espaço. Nunca tinha visto sua mochila marrom ou sua cicatriz no cotovelo esquerdo. Nunca! Deve ser o que a psicologia chama de 'invisibilidade relacional'. Você convive com a pessoa todo dia, mas sequer repara na existência dela. Nesse dia, reparei. E no dia seguinte, na mesma estação de ontem, cheguei mais perto e vi que ele escutava Elis Regina. E na hora de saltar, quando esbarram na bolsa dele vi que ele lia Bukowski. E quando sentamos na mesma hora pra tomar um café, ele puxou assunto e disse "Gostei da sua camisa!" e eu olhei e vi que era dos Rolling Stones. E nos outros dias, enquanto o metrô não vinha, ele reclamou do tempo. Eu reclamei da hora. E meses depois, encontrando-o todos os dias, sempre nos mesmos lugares, ainda o acho mais misterioso do que sempre fora. Só que agora havia uma coisa diferente. Que eu não queria acreditar.



"vezenquando, uma coisa só começa mesmo a existir quando você também começa a prestar atenção na existência dela. Quando a gente começa a gostar duma pessoa, é bem assim." [ Caio Fernando Abreu ]

domingo, 13 de dezembro de 2009 às 17:38
O amor não acabou. Quando eu ouço o telefone tocar, saio correndo e falo o "alô" mais ansioso do planeta (não reclame das minhas hipérboles!), eu sinto um frio gostoso na barriga quando ouço o seu "alô" do outro lado. E quando não ouço, também sinto, porque todo o percurso até o telefone me traz uma esperança enorme de ser você e eu demoro um pouco pra me dar conta que é outra pessoa. Isso é amor. Não é amor? O amor não está incompleto. Não estou como uma pessoa amputada, que não tem um braço, uma perna, ou a vista e nos dias de solidão sente a dor do membro que não tem... Não! O amor tem tudo: confiança, carinho, zelo, proteção, tudo! O amor não mudou. Continuo querendo seu abraço apertado nos dias de chuva forte, continuo sentindo seu cheiro quando durmo abraçada ao seu casaco, continuo te escrevendo cartas que você nunca respondeu e nunca vai responder. E poderia citar inúmeros "continuo..." porque há muitos. Mas o que acontece é que o amor cansou. E eu cansei junto. E, talvez, não sei, pode ser, você tenha se cansado antes. E tudo desmoronou como uma cascata em peças de dominó. Não sei quem começou, não sei como começou. Só que terminou. De alguma maneira, terminou. E foi doloroso, ainda sinto umas pontadas de dor aqui e ali. Mas foi bom. É difícil seguir em frente com cansaço. E temos muita coisa pela frente... Eu, você. Não mais eu e você. Quem sabe, eu e ele, você e ela. Quem sabe nós. Quem sabe... Não sei. E é gostoso não saber. Só sei mesmo que o nosso amor está cansado. Já está velho. Por mais que haja confiança, carinho, zelo, proteção e tudo, e há!, duvidamos sempre. É muita dúvida. É muito não. Muito sim. Muito muita coisa que já não cabe mais no nosso aquário. Mas o amor não acabou.

E que venham novas cores.


Talvez os homens nasçam com a verdade dentro de si e só não a digam porque não acreditam que ela seja verdade. [ José Saramago ]

Retalhos

terça-feira, 8 de dezembro de 2009 às 19:35
Era mais um desses dias quentes do Rio de Janeiro. Três da tarde, sol a pino, rodoviária lotada. No chão, havia um menino de mais ou menos treze anos, esquálido, negro, vestido somente com uma bermuda surrada. Deitado com o tronco direto no concreto quente da calçada, as pernas estavam elevadas encostadas na parede. Suava muito. E respirava lentamente escandalizando as pessoas com suas costelas quase à mostra. Parecia morto, incólume ao incômodo alheio. As pessoas, por sua vez, passavam, olhavam, sentiam pena, asco, comentavam "menino, sai daí! vai pegar um insolação!", mas não paravam. Parei.
- Ei, acorda!
Nada.
- Ei, menino. Tá muito quente o chão e você tá se desidratando nesse sol.
- Me deixa! - Ele mal abriu os olhos.
- Tá com sede?
Não respondeu.
- Ó, vem aqui pra sombra que eu te dou um pouco de água. - E tirei uma garrafa d'água da mochila.
Ele sequer levantou.
- Você vai passar mal assim, sabia?
- Sei.
- E você quer ficar aí até quanto tempo?
- Até morrer.
Não soube o que responder. Desejei saber de psicologia e falar frases do tipo "Vamos! Você é muito jovem! Tem muito futuro pela frente!" Mas eu não era psicóloga e não via futuro para ele. Mal via pra mim! Vencida, levantei e fui andando para entrar na rodoviária.
- Tia!
Ele ainda estava deitado, com um olho aberto e a mão tapando o rosto do sol
- Tem comida?
- Não tenho, mas posso arranjar. - Apontei para uma barraquinha do outro da lado da rua. - Quer biscoito?
- Não. Quero hamburger do Bob's.
As pessoas que passavam na rua soltaram uma risadinha sarcástica. Uma velhinha ainda disse: "Não se pode dar confiança pra pivete!"
- Olha, eu não tenho dinheiro para comprar no Bob's.
- Ah, tia. Por favor...
Ele já tinha abaixado as pernas, insinuando levantar.
- Eu também queria, mas não tenho mesmo.
- Poxa, tia...
- Tá, vem. Um hamburger.
E ele deu um salto que me assustou. Levantou com uma força surpreendente. Pegou com uma mão a minha água que estava no chão e com a outra ele pegou a minha mão.
- Vamos, tia. Você come também?
- Eu não. Só você.
De certa forma, era estranho eu estar de mãos dadas com um menino que mal conhecia. Mas para ele era tudo tão natural, que fingi pra mim também ser. Subimos a escada rolante.
- Então você gosta de hamburger do Bob's, né?
- Sim. Quando os guardinhas deixavam a gente entrar, eu catava os restos de hamburger que ficavam nas bandejas. Era tão bom! Mas agora os guardas não deixam a gente subir mais.
- Você nunca comeu um inteiro?
- Não, só as sobras das pessoas.
- E qual você vai querer?
- Tem mais de um, tia?
- Tem, tem vários.
- O que você acha mais gostoso!
Ele andava pulando, com aquela ansiedade infantil de quem muito espera. Veio um guarda:
- Ei, ei! Já falei que você não pode entrar, moleque!
- Mas ela vai comprar um hamburger pra mim!
- Não interessa! Anda, desce lá.
Ele olhou pra mim. Pedindo com os olhos que o defendesse. Que fizesse um escândalo, que brigasse pelo seu hamburger! Não disse nada. Não sei fazer escândalos, muito menos tenho peito para brigar com guardinhas. Tinha problemas com autoridade. O guarda disse:
- Senhora, se quiser compra o hamburger e leva lá fora pra ele.
- Mas é rapidinho... Vamos só comprar e...
- Não senhora. O pessoal vai começar a reclamar. Não pode não!
Eu podia usar um argumento jurídico, sociológico, antropológico, psicológico, mas usei só o apelo emocional:
- Por favor, seu guarda...
- Ó, bem rápido! E ele come lá fora...
Ele ainda me deu um sermão de que ali não era lugar pra caridade, que as pessoas se sentem incomodadas, pois ficam com medo de serem assaltadas e além do mais ele tava nojento, suado, fedido e blá blá blá.
Poderia agora fazer um discurso anti-moralista. Poderia criticar algumas éticas. Poderia defender uma bandeira. Poderia me heroicizar. Mas não vou. Comprei o hamburger, ele pegou e saiu correndo pelas escadas, sem agradecer, sem falar, sem olhar pra trás.
Eu fui pro guichê comprar minha passagem e ir pra casa.

Essa história não tem moral alguma. Sinto muito.

sobre morrer

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 às 11:59
Quando era criança tinha medo da dor. E enquanto viva, eu poderia fugir da dor com remédios ou com o carinho da mamãe que beija o machucado. O meu medo vinha de sentir dor no momento da morte. E qualquer morte que parecia dolorida pra mim era aterrorizante. Morrer queimada. Tinha medo de fogueiras e velas. Até que o fogo me atraiu mais que amendrontou. E comecei a sonhar que caía de abismos. Meu medo, pois, passou a ser morrer caindo. Desviava de bueros. Evitava elevadores... Passou também. Depois de ler Virginia Woolf, e saber que ela tinha colocado pedras no casaco para afundar assim que entrasse na água e no entanto se afogar. Que morte terrível deve ser sufocar embaixo d'água! Mas passou. E infinitos medos me tomaram durante a vida. Medos de morte. Morte por asfixia. Morte por tiros. Todas elas se baseavam na dor. Era esse meu maior medo. A dor.

Mas agora, 21 anos depois, me dei conta que criei um novo medo de morte. Baseado numa dor que é maior do que todas essas que já temi: a dor da saudade. Ah, tenho tanto medo de morrer de saudade! E se morre de saudade, viu? Não se enganem! As estatísticas não mostram, mas muita gente morre de saudade. E pra confessar, tô morrendo aos pouquinhos. Hoje morri um montão. Só de saber que você me despreza e vai embora pra nunca mais voltar. Hoje deitei na cama e pensei na puta saudade que você me faz, e fará. E sempre fez!

Lembro... de um dia chuvoso, chuva dessas de verão, ouvi um raio. Assustada, como sempre fico, fui olhar o céu pela janela. Você disse "Ai, tomara que seja trovão! E que venham muitos". Parece maldade, já que você sempre soube do meu medo infantil de trovões. Mas não era. Era tanto carinho, mas tanto carinho, que você me queria por perto. Me queria com medo pra me proteger. Pra me enlaçar nos seus braços e me apertar fundo como você sempre faz. Sinto uma saudade cruel do seu abrigo. Porque lá fora agora tá um sol imenso, mas aqui dentro só tem trovão.

E já sei. Vou morrer de saudades! Literalmente. E saiba: dói muito essa vontade irremediável de você. Dói muito saber que do outro lado, não sou eu quem você admira. Desse lado de cá, há muito amor. Amor errado, manco, ácido, amor que não serve de nada. Só pra amar. Mas há amor demais. E transborda. E cresce. E dói.

Não tem jeito. Meu trovão é a saudade.


"Querido,
Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos." [ Carta de despedida de Virginia Woolf ao marido ]

Parati

terça-feira, 1 de dezembro de 2009 às 15:04
Deitei numa cama alheia. Com um lençol alheio. Com uma pessoa alheia. Tirei a roupa que era minha. E entreguei o corpo que não era mais meu. Nem seu. Nem dele. O resto não me lembro mais. Não que tivesse ébria ou louca. Só não quero mesmo me lembrar. O que vagamente me lembro é de me virar de lado, depois de muitas horas, sentir um calor sufocante e ouvir a voz, que não era minha, devia ser dele, dizer:
- Você está chorando?
Foi aí que meu dei conta de que havia uma lágrima solitária no canto do olho. Estava chorando.
- Claro que não! É o suor.
E suava. Suava muito. Não sabia se o suor era meu ou do corpo alheio. Não sabia se aquelas mãos geladas eram minhas ou dele. Não sabia mais o que era meu. Nem o que tinha sido seu. Nem o que era dele naquele quarto, que certamente, nunca estivera. Não que não quisesse saber. Dessa vez não sabia por embriaguez ou loucura mesmo.
- Quer cigarro?
- Quero.
- O que você tá escrevendo?
- Nada... Coisas que são feias na realidade, mas que ficam bonitas quando escritas.
- Sei.
Essa pessoa não sou eu. Essa pessoa alheia não é minha. E você, você não está mais aqui.

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