nobres ilusões

sexta-feira, 23 de julho de 2010 às 14:40
Na gaveta de baixo, dessas gavetas em que ninguém se abaixa pra abrir, gaveta de coisas que você nunca usa, é nela que estão todos os diários de menina. Tempos de menina que ela se esqueceu por orgulho. Há tempos, clama aos ventos ruidosos da cidade de praia, de que não é mais menina! Há tempos... E alguma coisa muito madura dentro dela nasceu, é verdade. Mas ali guardado, há quanto tempo mesmo?, estão os escritos passados. Ela sempre gostou muito de escrever. E egoísta, como regem os astros, sempre gostou de escrever sobre si, embora a faculdade de agora a obrigue a escrever sobre todo o resto. Eram muitos diários. De muitos anos. E muitos amores. A letra quase a mesma, com algumas variações de tamanho e cor de caneta. Citações, como sempre! Todos eles possuíam citações de frases de alguns dos muitos livros que ela costuma ler desde muito cedo. Riu quando viu que já lera Paulo Coelho. E gostava. Riu mais ainda quando, aos 14, disse que Virginia Woolf era confuso. E nas páginas enfeitadas, sentiu-se mais menina quando viu que muito do que estava ali, com alguns erros pouco usuais de gramática, ainda era sua vida de agora. Os temores infantis da solidão efêmera. A dubiedade entre ser e parecer, entre o mostrar e o mentir, essas coisas que a gente acaba por nunca escolher quando cresce. Ah, e os amores confusos e fugazes. O se jogar por inteiro naquilo que ainda é superfície e se frustrar quando descobrir que muitas coisas, não possuem nada além do superficial. O famoso invólucro falacioso! Não precisava ser menos menina pra saber que tudo isso existe, mas foi só depois de grande, não muito grande, que ela descobriu que essas coisas permanecem. Como um estigma. Fechou todos os diários e a gaveta. Descobriu-se mais que revelada, descobriu que não é só o maldito ato de escrever compulsivamente - com um quê de egoísmo solar - que continua o mesmo, tudo o mais também. Assim sem nenhum brilho.


"Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta." [ C. F. Abreu ]

1 Responses to nobres ilusões

  1. Felipe Brito Says:

    Coisa brilhante ter muitos escritos e resgatá-los quando tudo correu e não se percebeu.

    =)

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