travessia

terça-feira, 19 de outubro de 2010 às 18:40
Choro, sem medo. Choro porque depois de tanto tempo é difícil colher tanta coisa que não se plantou. Talvez sejam lamentos de menina. De certo, faz parte da vida. Mesmo que seja das passadas. Procuro alguma harmonia nesse desencanto efêmero que me assombra e me abraça. Mas só o que acho é um encanto sobrenatural nessa desarmonia vulgarmente conhecida como mundo. Peço calma. Peço tempo. Peço calma e tempo porque até onde estou eles se misturam e se confundem como moléculas. Por vezes, chamo aos berros que me socorram. Noutras, silencio e me refugio, mentindo a mim o desejo de encontrar quem quer que possa me oferecer o novo. Ou o vivo. Ergo-me, cambaleante, dia após dia na esperança feérica de me espelhar. O perder para se encontrar. Entende isso? É confuso, mas é humano. E sentimento é o único arquétipo universalmente irrefutável. Então você me entende...


"Eu sempre sofri em silêncio, - e o silêncio nos faz sofrer mais profundamente." [ Kahlil Gibran ]

o vazio que cabe

quarta-feira, 13 de outubro de 2010 às 18:42
a menina mudava de rosto conforme a ocasião. preto, vinho, azul. não importa qual a cor da sombra nos olhos, o tom de sangue vivo nos lábios era sempre o mesmo. sua pele morena não realçava tanto a cor escandalosa, mas o batom deixava bem claro o que queria dizer através da boca: ela fere. e feria por aí muitos e muitos protótipos. não de propósito. não é sua essa maledicência vermelha. também não era tão ingênua a ponto de não saber o poço fundo que cavava. pois a menina não só mudava de caras, como mudava de cárater. dependia do vestido. do tamanho do pano. e da extensão da noite. e se divertia, a menina, com tantos personagens cada vez mais reais. para os outros, menos para ela própria. foi assim que ela, ao inventar e desinventar festas e lutos e encontros e motivos e tropeços, que se deixou levar. "não quero mais", bateu o pé. como criança e sua condição de livre encenação. e fechou as portas e largou as cores e os tecidos. juntou folhas e perfumes. e pronto... encerrado o ato! mas a vida continua, menina. ela nem percebe...



"(...) e eu lhe respondi que não fazia nada mais que estar vivo, porque tudo o mais não valia a pena." [ Gabriel García Marquez ]

o que me falta é o que me basta

quarta-feira, 6 de outubro de 2010 às 00:08
... o que me sobrou de você foi uma ferida exposta. um buraco imenso e fundo que infecciona toda vez que alguém chega com ares de cura. e mesmo que venham linhas de ternura para costurar esse cancro seu, ele lateja como se não estivesse preparado para se tornar cicatriz. eu finjo, entre cortinas, que ele não existe. que ele não grita por atenção. que ele não me causa repúdio. mas a bem da verdade é que ele me causa coceira em dias de sol e dor nos dias de chuva. e mesmo tapando com uma atadura, as pessoas notam e comentam que eu escondo sempre alguma coisa por debaixo de mim. eu digo que foi acidente, por vezes até minto, não-é-nada, vai-passar, trauma-de-infância. mas que diabos, quem estou enganando? isso tudo é você. foi sua culpa. foi você quem fez. essa ferida tem seu dedo que escarafunchou e fez sagrar. foi você naquele fatídico dia que, covarde como sempre foi, vendo-se perdedor do conflito, resolveu me marcar. um troco muito bem dado, diga-se de passagem, posto que te marquei com suaves desgostos. embora não tenha fugido de nenhum deles. mas que seja! espero. espero porque é o que dizem: o tempo sempre cura. e ao contrário de você, não ofereço a ninguém a cruz que não possam carregar.


Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você. [ Sartre ]

o labor das línguas

quarta-feira, 29 de setembro de 2010 às 19:02
Juro que não queria falar de você. Não que me falte palavras. Tenho-as aos montes. E combinações entre elas me surgem à cabeça todo minuto. Mas, sabe, não quero que se veja por aqui. Não sei, inclusive, que importância te dar. Medo de que você veja que acho nós dois confusos e se surpreenda porque talvez você nos ache extremamente claros. Pretensão pura já que parto do pressuposto de que você me lê. Acho que nem o faz, sinceramente! E se um dia quem saiba venha a me encontrar, não quero que discutamos registros passados de sentimentos que morreram ou amadureceram. Porque é isso que acontece com os encantos, não é? Eles morrem ou se transformam (em amor, por vezes). E não sei nem o que somos, o que fomos, quanto mais saberei o que vamos ser! Embora esse futuro nosso seja cada vez mais próximo. Então, quando ele chegar, pomposo ou desastroso, eu escrevo coisas sobre você. Te escrevo sobre sentimentos que, dessa vez, serão diagnosticados (assim, bem visceral!). E espero que você os leia. Porque é assim que tem que ser. Como será, não sei.


"Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz." [ Clarice Lispector ]

corre e olha o céu

terça-feira, 21 de setembro de 2010 às 19:57
Porque são humanos, são falíveis. E não espero nada deles, a não ser essa falibilidade que é minha também. Que é de todo mundo. E espero que eles maquiem minhas imperfeições tanto quanto maquio as que são deles. E faço de bom grado. Na verdade, faço porque não sei não fazer. Faço porque é meu, é a minha natureza deixar levar. E o que fica, o que finca, o que importa, isso não se vai. Fica numa caixinha que cultivo e cativo. E fortalece porque amizade é isso mesmo: força. Mas porque sou humana, portanto, falha por definição, também quebro. E quebra junto toda essa força que cuidamos e nos mostra uma fraqueza que também é minha. Que é de todos nós. Remendar uma corrente não dá certo. Qualquer remendo, seja qual for, não fica como era antes. E eu vou tentar consertar, juntar os pedacinhos, fazer uma nova caixinha, quiçá. Tapar alguns buracos... E se não der certo, a gente constrói de novo. Porque são humanos, não são recicláveis. E eu não quero esse quebranto de novo. De novo.



"Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal." [ Oscar Wilde ]

o amargo

quinta-feira, 16 de setembro de 2010 às 19:11
por que ainda ficas? por que ainda me olhas com estes olhos pedintes? por que tentas buscar explicações pra toda essa coisa ilógica e racional que é o desamor? vai te embora. não voltes, se puder. não ligues, se conseguir. não me procures, lhe peço. e quando me vir passando pela calçada, não sorrias como sempre fazes com qualquer um. quero estar aquém de qualquer simpatia que possas oferecer. tampouco posso oferecer-te nada além do que meu desprezo. e não te espantes com minha aspereza. nem lhe é tão novo, embora pra mim não seja caro. mas esse vômito é tudo que acumulei dias e dias de aversão que contive por carinho a ti. mas até o carinho já se foi. a catarse se faz necessária. se puder entender, entendas. se não puder, partas com muita dor. essa és tu, a que sempre sofre. não compartilho de nada que possas ter lhe causado pesar. tu mal queiras ver o mal que, conscientemente, me trouxeste. não reclamo, contudo. tu nunca tiveste tez de bons ventos. olhe, sigas teu caminho, longe do meu, faças o favor. e escondas tu esse choro dos olhos. não me causa piedade esse amadurecimento de um amor solitário. agora vai-te. vai!


“Cuidado com as ilusões, mocinha, profundas e enganosas feito o mar que é teu elemento.” [ C. F. Abreu ]

o doce

sábado, 11 de setembro de 2010 às 11:39
se aconchegue, pequena. venha, meus braços estão abertos e clamantes. teu cheiro inundou a sala antes mesmo de chegar, eu estou aqui esperando que te atraques em mim. largues o quente da caminhada e venha para que minha pele te aqueças com mais fulgor. sorrias assim, menina. é tão gostoso tua risada de descanso. teu leve sussurrar de agradecimento implícito. as palavras transbordam e eu as ouço porque essa é nossa paz. e o leve comentar da existência do mundo lá fora me faz regozijar ainda mais esse mundo só nosso aqui dentro. encaixe tua cabeça no meu peito. é bom mexer nos teus cabelos e ver que o cheiro suave do teu shampoo me inunda inteiro. engraçado, amor meu, toda vez que sinto tua falta, toda vez que estou longe de ti, é esse cheiro dos cabelos que vem à cabeça. me visita sempre a imagem de ti dormindo aninhada em mim quando estamos vendo filme no sofá. tu que não gostas de filme, aceitas sempre como pretexto. gosto desses subterfúgios que tu aceitas e inventas só pra que a gente se tenha. gosto mais ainda quando me acordas com a fumaça do chá e com palavras calmas da beleza do dia. tão bonito, morena, que o dia pra ti esteja sempre tão belo! que a chuva seja motivo de abraço e o sol motivo de mãos dadas. chegue mais perto, meu bem. chegue...


“Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas.” [ C. F. Abreu ]

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